Quando as asas ganham voz

Luiza José Nunes de Farias

"O estímulo transforma às vezes um fraco num forte e um ignorante num homem culto." Pompeu Cantarelli

Dentro de um grande viveiro, moravam cerca de 40 pássaros bem velhinhos. Ali a rotina pouco mudava: acordar, tomar banho, tomar café, pegar sol, almoçar, assistir TV, lanchar, assistir TV, jantar, assistir TV e dormir. De vez em quando uma festinha, um passeio. Parecia um filme repetido, um relógio que não andava... A falta de recursos era grande, mas a vontade de dar mais vida ao cenário era maior. Um belo dia dona coruja pousou por lá, e pensou:

– Esse povo precisa soltar a voz! Entendo bem de voz, e de música um pouquinho... E foi pensando assim que resolveu organizar um coral. Dona patativa, uma enfermeira muito delicada, dizia:

– Acho uma ótima ideia, mas... são todos tão preguiçosos!

Dona arara, a diretora, sempre sorridente e esperançosa, prontificou-se imediatamente para ajudar.

Dona águia, assistente social, cedeu sua sala, gravou músicas, copiou letras. Assim que soube, dona cigarra, que era psicóloga e também entendia um pouco de música, foi procurar dona coruja. Ambas saíram convidando todos para formar o tão desejado coral. Mas para falar a verdade a passarada pouco se importou. Mesmo assim as duas senhoras não desistiram. Dona cigarra propôs então pegar os instrumentos antigos de uma bandinha infantil e formar um grupo de recreação musical. Eles, os pássaros, foram chegando aos poucos (e saindo também). Alguns faziam piadas (e não piados) dizendo que aquilo era papel de criança, outros gostariam até de participar, mas a preocupação com o julgamento dos demais os impedia. Muitos tinham vergonha. Tinha aquele que cantava todas as canções soltando de dentro de seu quarto, tremendo vozeirão, mas não se juntava ao grupo. Alguns não se interessavam, e outros achavam mesmo que era uma grande palhaçada.

Falaremos sobre as aves que aceitaram a sugestão e que durante quase três anos viveram momentos simples, porém de muita alegria e crescimento, não só para elas, mas principalmente para dona coruja e dona cigarra:

– Falaremos da andorinha Mimi, que vivia cercada de bonecas e conversava com elas como se fossem crianças, e que parecia não falar coisa por coisa; da rolinha Naná, que ficava fazendo seu crochê, uma bainha aqui, um botão pregado ali, e uma televisão ligada passando não sabia o quê; da papagaia Teca, muito gorda, que ficava da cama para a cadeira de rodas e vice-versa, que toda hora chamava alguém para pedir ajuda; do pardal Dedé, muito inteligente, que, mergulhado nos livros, irritava-se com o mínimo barulho, e que dava verdadeira aula quando apresentava detalhadamente suas pesquisas; do canário Joca, que só tinha olhos para as cartas, e passava o dia jogando buraco; do pavão Zito, todo vaidoso, que só tirava os olhos da TV, se fosse para elogiar uma fêmea.

O tempo foi passando, e a alegria reinava às quartas e sábados, principalmente para Mimi, Naná, Teca e Dedé.

Após a cantoria sobrava sempre um tempinho para uma roda de leitura, uma troca de ideias, um desabafo e muitas descobertas, porque todos tinham sempre algo para dizer ou ensinar.

Cigarra e coruja começaram a perceber que naqueles momentos estava sendo construído algo bem mais abrangente que um grupo reunido para se divertir, talvez um pequeno núcleo familiar. Mudanças muito pequenas, porém de grande importância aos olhos das duas terapeutas.

Teca até conseguia dar uns passinhos indo da cama até a porta do quarto para ficar mais perto do grupo. Dedé diagnosticava a tosse da Naná, e nos outros dias ajudava Teca nas tarefas escolares. Dava sua opinião sobre assuntos diversos, e classificava aqueles encontros como uma alegria de carnaval, que começava no sábado e acabava na quarta-feira. De qualquer forma, somente naqueles momentos era possível encontrar no rosto de Dedé um belo sorriso.

Joca e Zito distanciavam-se de seus vícios ao menos por duas horas durante dois dias na semana. Mimi, que parecia tão alheia, surpreendeu porque conhecia todas as músicas e letras, cantando no ritmo sem desafinar. Certo dia que não chegou a tempo de aproveitar a recreação, porque precisava antes trocar as fraldas. Para a surpresa de todos, no encontro seguinte veio toda feliz, dizendo que estava usando calcinhas. Ou seja: De quarta até sábado Mimi conseguiu controlar a urina só porque não queria perder a oportunidade.

(A autora é fonoaudióloga, militante da Filial São João de Meriti-RJ)

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