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Uso abusivo de drogas

Glaci Ribeiro da Silva

[...] O prazer deve entrar por uma grande parte na vida humana, mas nunca poderá formar a sua essência ou o seu único objetivo (...); ele não serve senão para aguçar ou incitar grosseiros instintos e impedir o nosso aperfeiçoamento, por meio da concentração egoística de nosso espírito avassalado pela idéia do gozo e só do prazer, como um animal abjeto. [...] (Visconde de Sabóia, no seu livro A vida psíquica do homem; p. 535; 1903.

Uma característica marcante da decadência dos costumes no mundo atual é o uso abusivo de drogas; ele é cultivado pelos seguidores do Hedonismo (do grego, hedoné, prazer, + -ismo), uma doutrina que reverencia o prazer físico individual e imediato. Essa doutrina, não deve ser confundida com o Epicurismo cujo autor, o filósofo grego Epicuro, – um homem de virtude exemplar –, já advertia na época (341-270 a. C.), que prazer não significava gozo material, mas cultura do espírito e prática da virtude.

Para evitar preconceitos e não estigmatizar pessoas, atualmente a palavra vício tem sido substituída pela expressão uso abusivo. Dentro desse conceito, o mesmo vem acontecendo com o termo médico distúrbio que os profissionais da saúde têm substituído por transtorno para causar menor impacto psicológico no doente que faz uso abusivo de drogas. Porém, essas substituições em nada alteram os antigos conceitos de vício e de distúrbio. Pura questão de semântica, nada mais.

O termo droga originou-se da palavra droog que, em holandês antigo, significa folha seca pois, na época, quase todos os remédios eram feitos à base de vegetais. As drogas usadas abusivamente pertencem à classe dos psicotrópicos; a maioria deles é usada como medicamento e receitada por médicos; porém, alguns – conhecidos simplesmente como drogas –, possuem características específicas, são ilícitos, usados abusivamente e, geralmente, auto-administrados.

O vício por drogas é um dos maiores problemas que o mundo atual vem enfrentando. Além dos óbvios prejuízos físicos e psicológicos que esse distúrbio induz, ele é também um importante causador de doenças. Alcoólatras são propensos à cirrose hepática; fumantes são suscetíveis ao câncer de pulmão; e, viciados em heroína, disseminam AIDS ao compartilhar agulhas. Nos Estados Unidos, o impacto desse vício na saúde e na produtividade é estimado em mais de 500 bilhões de dólares por ano, transformando-o num dos problemas mais sérios da sociedade. Se a definição de vício for ampliada para incluir outras formas de comportamento compulsivo-patológico, como o jogo, os custos são ainda maiores.

Seria hipocrisia falar sobre as drogas sem mencionar as sensações prazerosas que elas proporcionam. Se não for por prazer, como explicar o fato de cerca de 200 milhões de pessoas no mundo (cerca de 5% da população global entre 15 e 64 anos) terem consumido pelo menos uma delas em 2004, como consta no relatório anual sobre drogas da Organização das Nações Unidas (World Drug Report 2005)?

Na realidade, existem motivos de sobra para querer experimentá-las, seja pelo desafio à proibição, por curiosidade de experimentar um estado alterado de consciência, pela possibilidade de esquecer dos problemas em meio a uma viagem psicodélica, pela sensação de relaxamento causada por um baseado (cigarro de maconha), pela energia para encarar longas e exaustivas jornadas de trabalho proporcionada pela cocaína, pelo incitamento sensorial causado pelo ecstasy, etc.

Mas seria também uma total falta de senso não enfatizar o risco que esse prazer envolve; muito freqüentemente seu custo é a própria vida do usuário como mostram os dados da Organização Mundial de Saúde: todos os anos, 0,4% da população mundial (200 mil pessoas) perdem seu corpo físico vitimados pelo uso abusivo de drogas.

Nosso objetivo nesse artigo é analisar teorias que explicam a causa do vício por drogas. No entanto, algumas sugestões de leitura sobre as drogas e seus efeitos podem ser encontradas na Bibliografia. (ver Leituras adicionais sobre drogas).

Já de longa data os cientistas sabem que o prazer e a euforia produzida pelas drogas resulta da ativação que elas provocam no Sistema Cerebral de Recompensa (SCR): um circuito complexo de neurônios cuja finalidade fisiológica é produzir uma sensação de bem estar (ou euforia) após a satisfação dos instintos de conservação e de reprodução.

Na escala zoológica as características do sistema nervoso são muito semelhantes. As similaridades são de tal ordem que grande parte da neurociência foi desenvolvida usando três tipos de animais experimentais: um verme subterrâneo de um milímetro de comprimento chamado Caenorhabditis elegans, o rato, e a Drosófila – uma mosca que costuma voar sobre frutas maduras.

Muitas vezes, até mesmo as substâncias químicas (os neurotransmissores) que comunicam as células nervosas (os neurônios) no verme, na mosca e em mamíferos como o rato são praticamente as mesmas. O SCR sob o ponto de vista evolucional é uma estrutura muito antiga; e, de um modo rudimentar existe até mesmo no verme Caenorhabditis elegans.

Partindo dessas informações, os pesquisadores procuraram verificar se o rato era capaz de consumir por conta própria as mesmas drogas das quais os humanos tendem a se tornar dependentes.

Os experimentos eram feitos em animais que estavam em gaiolas individuais e tinham uma cânula inserida na veia; eles eram treinados a acionar três alavancas: numa, eles recebiam uma dose de droga por via endovenosa; numa outra, soro fisiológico ao invés da droga e, ao apertar a terceira alavanca recebiam uma porção de ração.

Em poucos dias, os animais estavam treinados a se auto-administrar cocaína, heroína, anfetamina e outras drogas que causam dependência em humanos.

Depois de certo tempo – no entender dos cientistas –, esses animais também acabam tendo certos comportamentos semelhantes aos de humanos viciados: eles consomem drogas em detrimento de atividades fisiológicas como comer e dormir, chegando até a morrer de cansaço ou subnutrição; passam a maior parte do tempo em que se encontram acordados, acionando centenas de vezes a alavanca para conseguir mais droga mesmo que isso signifique um único sucesso; tendem a permanecer na área da gaiola onde está a alavanca que pressionada injeta droga fazendo lembrar assim a vontade irrefreável sentida pelos humanos ao verem à parafernália associada à droga ou até mesmo os locais onde a consumiram, etc.

Quando a droga é retirada, os animais logo param de trabalhar pela satisfação química. Mas não esquecem o prazer. Um rato abstêmio – até mesmo por meses – vai retornar imediatamente ao comportamento de pressionar a alavanca se receber apenas uma dose mínima de cocaína ou se for colocado numa gaiola que ele associe à droga.

Além disso, situações psicologicamente estressantes, como um choque periódico inesperado nas patas, fazem os ratos retornarem imediatamente às drogas. Estímulos similares em humanos viciados – exposição a doses baixas da droga, imagens associativas e estresse – também deflagram a sensação de necessidade extrema e as recaídas.

Através desse esquema de auto-administração associado à técnica de mapeamento cerebral, os cientistas chegaram à conclusão que as drogas agem se apropriando do SCR e o estimulam com maior intensidade e persistência do que qualquer recompensa fisiológica (alimentação e sexo, por exemplo).

O vício de drogas se inicia com o aparecimento de dois sintomas: a Tolerância e a Dependência. Na Tolerância, o usuário é obrigado a aumentar gradativamente a freqüência do uso da droga para manter constante sua euforia. Porém, é a Dependência o sintoma fundamental do vício. A tolerância que a precede funciona como um sinal de alerta cabendo porém ao usuário a decisão final de caminhar para a dependência se entregando ao vício. Em outras palavras, é o mau uso do livre-arbítrio do usuário que o leva ao vício.

A Dependência é caracterizada pelo desejo compulsivo por drogas que o viciado é incapaz de controlar; em alguns casos, quando o acesso à droga é interrompido, a dependência se manifesta através de reações físicas graves e dolorosas – a chamada Síndrome de Abstinência.

O pensamento, o sentimento e o livre-arbítrio são funções rudimentares nos animais irracionais; elas se manifestam quando impelidas pelos instintos e são exercidas pelo cérebro que é órgão do Espírito; é porém completamente impossível que ele as produza. (Visconde de Sabóia, no livro A vida psíquica do homem; ver bibliografia).

Não é de se estranhar, portanto, que a dependência – marca registrada do vício –, não tenha ocorrido no rato treinado a usar drogas pois esse fenômeno está intimamente ligado ao livre-arbítrio, ao querer, à vontade, enfim.

Esse estudo sobre o efeito das drogas em ratos foi feito em meados do século passado; suas conclusões serviram de base para a neurociência responsabilizar o cérebro pelo vício das drogas.

E, apesar de já estarmos em pleno século 21, esse mesmo mecanismo é ainda defendido pelos neurocientistas. No entanto, eles agora podem obter dados mais precisos investigando diretamente o cérebro humano com o auxílio de técnicas não-invasivas como a ressonância magnética funcional e a tomografia por emissão de pósitrons.

Confirmaram assim que circuitos neuronais mais complexos porém equivalentes àqueles detectados em ratos, controlam também em humanos, tanto as recompensas fisiológicas como as relacionadas com as drogas.

Outros achados, porém, vêm desafiando os pesquisadores que não encontram para eles explicações lógicas, e muitos detalhes continuam sendo ainda um mistério. Mas com certeza eles seriam mais facilmente desvendados se a ciência médica que tão brilhantemente vem estudando os efeitos das drogas no cérebro procurasse determinar com o mesmo afinco e dedicação qual a causa responsável por esses efeitos.

A ciência médica e a ciência racionalista cristã possuem raízes filosóficas antagônicas, pois enquanto a primeira, por ser materialista, nega a existência do espírito, a Doutrina racionalista cristã está inteiramente fundamentada no espiritualismo, ou seja, na sobrevivência do espírito após a desencarnação (ou morte).

Na visão da ciência racionalista cristã, o vício por drogas nada mais é do que uma obsessão; um fenômeno caracterizado por pensamentos e impulsos, permanentes ou periódicos, que chegam à mente de um modo involuntário e que são muito resistentes às tentativas de ignorá-los ou suprimi-los.

Esse fato é também aceito pela ciência médica, porém, a divergência primária existente entre essas duas modalidades científicas reside na etiologia, na causa dessa patologia mental: para a medicina, sua causa está localizada no cérebro – um órgão do corpo físico, enquanto a Doutrina racionalista cristã afirma ser sua causa espiritual; as alterações cerebrais descritas pelos cientistas seriam somente efeitos decorrentes de perturbações espirituais e não a causa dessa patologia.

A Terra é um mundo-escola onde o espírito – uma partícula da Força Inteligente ou Deus, nome pelo qual é também conhecida popularmente – utilizando-se de um corpo físico vem aprender, ou seja, vem fazer a sua evolução. Ela não é portanto a morada definitiva do espírito; que ao deixar seu corpo físico no fenômeno conhecido como morte, deverá retornar ao mundo onde anteriormente estava estagiando. Porém, muitos deles ao invés de fazer isso permanecem na atmosfera da Terra; esse local no Racionalismo Cristão é chamado Astral Inferior em contraposição ao Astral Superior, onde estão os mundos de estágio.

Os pensamentos são vibrações do espírito e não secreções cerebrais como querem os neurocientistas. Essas vibrações variam de acordo com o tipo de pensamento: as produzidas por pensamentos de moral elevada divergem totalmente daquelas que são emitidas por seres com instintos grosseiros ligados somente ao prazer físico, caso dos usuários de drogas. Assim, em obediência à lei de atração, os pensamentos emitidos por esses usuários atraem espíritos obsessores que, quando encarnados, cultivavam também o mesmo tipo de vício. A localização desses seres pelos obsessores é facilitada pela mediunidade de intuição – comum a todos os humanos; porém, é evidente que aqueles com mediunidade já desenvolvida – os médiuns – são localizados por eles mais facilmente ainda.

O prazer causado pelas drogas é sentido através do corpo físico. Como os obsessores não possuem mais o seu, encostam-se ao do viciado para através dele sentir o mesmo prazer. E sutilmente vão criando vínculos com o viciado fazendo de tudo para não deixar escapar sua presa, transformando-a finalmente em parceira fixa. Uma parceria cujas vantagens são unilaterais pois para o viciado em droga, está se iniciando agora as agruras, os dissabores da dependência; ele está agora subordinado e inteiramente dominado pelo obsessor.

É também a presença constante dos obsessores nessa fase, a causa das disfunções cerebrais nos viciados. Esse fato é um dos achados que vem intrigando muito os cientistas e está presente também na esquizofrenia, outra patologia mental onde espíritos obsessores estão envolvidos. O assunto está detalhado no capítulo "Esquizofrenia: o dualismo entre o materialismo e o espiritualismo", do livro Racionalismo Cristão e Ciência Experimental, volume 2. (ver bibliografia).

Como no astral inferior os espíritos continuam alimentando os mesmos vícios que tinham quando encarnados, não somente o vício por drogas como também todos os outros existentes são explicados pela ciência racionalista cristã através desse mesmo mecanismo que acabamos de detalhar. (ver seção "Saúde e Vícios", no site do Racionalismo Cristão http://racionalismocristao.org/vicios.html).

O tratamento do vício por drogas tem sido um grande desafio para a ciência médica, pois as recaídas ocorrem com muita freqüência. Mas na luta árdua travada pelos profissionais da saúde para arrancar o dependente das garras dominadoras dos obsessores, é da maior importância que, tanto eles como o próprio paciente, se esclareçam sobre a vida fora da matéria, ou seja, a sobrevivência do espírito na ausência do corpo físico. Só assim sairão vitoriosos dessa luta desigual cujo inimigo – para a grande maioria das pessoas – é completamente invisível.

Bibliografia

Nestler, J. Eric. Molecular Basis of long-term Plasticity underlying Addition. Nature Reviews of Neurosciences 2: 119-128, 2001.

Mattos, Luiz de. Não pode haver efeito sem causa. In: Pela verdade: a ação do espírito sobre a matéria. Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor, 9a ed., p. 44-48, 1983.

Mattos, Luiz de. A educação da vontade. In: Pela Verdade: a ação do espírito sobre a matéria. Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor, 9a ed., p.242-248, 1983.

Mattos, Luiz de. Não mais imperam os loiolas científicos. In: Pela Verdade: a ação do espírito sobre a matéria. Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor, 9a ed., p. 124-125, 1983.

Racionalismo Cristão. Expansão aos vícios e contato perigoso. Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor; 42a ed., p.125-126; 2003).

Racionalismo Cristão. O Livre-Arbítrio. Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor; 42a ed., p. 148-153; 2003.

Sabóia, Visconde de. Funções do Espírito. In: A vida psíquica do homem. Rio de Janeiro e S.Paulo, Laemmert & C., Editores, p. 260-268, 1903.

Sabóia, Visconde de. Das diversas doutrinas morais. In: A vida psíquica do homem. Rio de Janeiro e S.Paulo, Laemmert & C., Editores, p. 535, 1903.

Silva, Glaci Ribeiro da. Uso abusivo de remédios pelos cultuadores do corpo. In: Racionalismo Cristão e Ciência Experimental, volume 1. S.Paulo, Editora Íbis, p. 63-79, 2004.

Silva, Glaci Ribeiro da. O estreito limite entre depressão e obsessão. In: Racionalismo Cristão e Ciência Experimental, volume 1. S.Paulo, Editora Íbis, p. 45-52, 2004.

Silva, Glaci Ribeiro da. Esquizofrenia: o dualismo entre o materialismo e o espiritualismo. In: Racionalismo Cristão e Ciência Experimental, volume 2. Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor, in press.

Souza, Luiz de. Os vícios. In: A felicidade existe. Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor, 7a ed., p. 99-105, 1982.

Leituras adicionais sobre drogas

-Drogas: Mitos & Verdades. Beatriz Carlini Cotrim. S.Paulo, Editora Ática, 1997.

-O que são drogas psicotrópicas? Cebrid - Unifesp/EPM www.unifesp.br/dpsicobio/cebrid/folhetos/drogas_.htm

-Por dentro do assunto: série de livretos sobre drogas publicados pela Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), Brasília, 2004. São distribuídos gratuitamente. www.senad.gov.br

-Drogas: cartilha para pais de adolescentes
-Drogas: cartilha para educadores
-Drogas: cartilha sobre maconha, cocaína e inalantes
-Drogas: cartilha para pais de crianças
-Drogas: cartilha álcool e jovens
-Drogas: cartilha sobre tabaco
-Drogas: cartilha "Mudando Comportamentos"
-Drogas: cartilha para profissionais da saúde

-Você sabe o que está fazendo? Revista Galileu, Editora Globo, Fevereiro de 2006, p. 30-49, Fevereiro de 2006. www.galileu.globo.com

-Drogas uma questão de saúde: Sopro de mudança. Revista ISTOÉ, p. 121-125, 8 de Setembro de 1999. www.istoe.com.br

Março de 2007

 

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